Comunidades
A confiança na razão é sempre determinada pela solidez da fé & assim será depois das visões calmas das manhãs. Os autocarros são amarelos por opção - mas não por opção divina. Um pensamento espúrio, ditado pelo jugo feminino do orvalho. Resta a desolação: o autocarro engalanado pelos trajes sintéticos dos operários, dos estudantes e demais madrugadores, os cães que simulam o coito em postes mal iluminados, esses arbustos raquíticos que oferecem o verde ao lixo & a anatomia vertical às brisas, se as houver. Pisou os degraus com peso comedido, contou o dinheiro (
Passeio Público
(É já amanhã [foi ontem])Os primeiros anos são sempre os melhores: as caras são frescas e as maçãs também. O arroz é de tomate, a faneca (nada menos que fresquíssima) acompanha. A fruta é tosca, mas o sabor é inconfundível: a César o que é de César, à laranja o que é da laranja. As couves conhecem-se pelo nome (penca, galega, flor, tronchuda, etc.). Há muito mais no seu nome que algumas folhas, filamentos e caule. Há prazeres, e gostos, distintos. Mais tarde, tudo muda. Imperceptivelmente. Fatalmente. O tempo encurta, deixamos de nos importar com o que comemos. Tornamo-nos reféns dos esquemas miseráveis de pol
Bentham
É interessante a recente valorização da ciência pouco confessável das vigilâncias. Uns gostam, outros não gostam, outros ainda gostam e não gostam (em concomitância e de acordo com o que lhe dá mais jeito). Sempre me pareceu que a hipocrisia é um dos piores defeitos que aflige este desgraçado país. Na mesma conversa elogia-se o «Estado de Direito», e a possibilidade de se realizarem (e usarem) escutas ilegais. No café perora-se contra o chip das matrículas, e na rua valoriza-se uma vigilância persistente e panóptica, desde que feita sobre pessoas que manifestamente detestamos. O hipócrita transcende o próprio ego: é uma pessoa diferente em cada cir
Passeio Público
(Inversão das transparências) Já vivi tempo bastante para deduzir o que se esconde nas entrelinhas. Ora, sendo verdade que o presidente da Câmara Municipal Coimbra (CMC), Dr. Carlos Encarnação, constatou finalmente, após oito anos, ponderosas razões para afastar a comunicação social de uma boa parte das reuniões camarárias, devo tentar identificar uma dimensão oculta nesta inusitada exteriorização do poder discricionário. A interdição é, de certo modo, paradoxal. O Dr. Encarnação aprecia, decerto, o controlo das câmaras – o olhar permanente das câmaras de vigilância que tornam as